CONSCIENCIAS INVISIVEIS | BELLO Brasil Nº01

Seres que habitam as profundezas de nossas mentes, e assim como nos oceanos, movimentam-se no silêncio profundo, abrindo caminhos no breu da escuridão com suas fosforescências, quase sem oxigênio. Gelatinas invertebradas que desafiam a existência e se adaptam ao absurdo em uma dança lisérgica, com delírios de formas e cores, que preenche o inimaginável.

Criaturas sem proposito ou consciência, sem pensar nem mesmo o porquê de estarem. Movidas por instinto, suprem sua única necessidade inconsciente de se alimentar. Divinas e livres, se alimentam de nossa energia, detritos de nossas intenções e ações. Alguns transcendem para o macro universo, podendo assumir formas monstruosas e incontroláveis.

Tenho uma só certeza sobre este universo: ele é real e está vivo em nossas mentes. Não expresso aqui um mundo paralelo, mas sim a estrutura e até mesmo a origem de todos os mundos: o micro universo.

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BELLO – De onde surgiu a inspiração para produzir um conceito tão abstrato mas paradoxalmente tão real, físico e tangente?
BL – Quando era adolescente, colecionava insetos, e cheguei a ter mais de três mil. Com os insetos repetidos criava usando partes de vários outros, também repetidos. Passei a criar insetos inexistentes. Tinha um pequeno laboratório com microscópio e etc. Ficava fascinado com as colônias de ovos e os mecanismos dos besouros. Ficou tatuado em minha memória, como um arquivo que reabro agora num mergulho profundo nesse micro universo, o inicio de tudo. Uma cadeia infinita que sustenta o macro universo e assim por diante, interagindo conosco em silencio e invisibilidade, criando um vácuo de cegueira em nossa percepção e entendimento, sobre nós mesmos e tudo á nossa volta.

BELLO – Aonde você recorre para inspiração?
BL – A arte me escolheu, pois desde criança, os lápis, os papeis, a argila, eram meus brinquedos inseparáveis, acredito nos dons e em muito trabalho. Fui um menino rebelde, e hoje sei que essa rebeldia me protegeu e me manteve fiel a esse amor maior que tenho por criar. Acho que a criação é um processo diferente de uma idéia ou um start, ou melhor, a idéia e o start fazem parte desse processo. Esse processo é o arquivo de tudo selecionado por mim, retirando a essência e a relevância de tudo que vejo. Ir ao mercado de peixe, ver a beleza da casca da lagosta, os tentáculos com ventosas de um polvo. Cabe a nós tirarmos da vida, minerar e peneirar essa beleza visível ao meu olhar e transformá-la em combustível e manifestá-la na magia da criação.

BELLO – Aonde o seu processo criativo para pinturas intercala com seu processo criativo para desenhar jóias?
BL – Em ambos necessito de um suporte, na pintura a tela ou o papel; na jóia o corpo. Sinto em ambos a liberdade de passear pelo abstrato ou geométrico, ou figurativo, ou o que seja. A arte é inconstante como a vida e nosso estado de espírito, hora mergulhamos muito fundo, hora estamos na superfície, hora voamos; uma complementa a outra, são irmãs, mas cada um com seu tom de voz. Acho que o que intercala essas duas atividades sou eu, ambas as filhas tem o mesmo Pai.

BELLO – O que a pintura te traz, que as jóias não trazem? Ou vice versa. Emoções? Lembranças? Nostalgia?
BL – Sei que ambas são extremamente carentes e não dividem a sua atenção uma com a outra. Quando o processo de pintura começa a dedicação é total e vice versa, são materiais diferentes, ferramentas distintas, ambas traduzem o novo, o que nunca existiu, e que elas permitem que exista, que venha á tona e se transformem em algum tipo de linguagem, mesmo que em uma linguagem abstrata e imaginaria. Fazer pensar, provocar, despertar sentimentos, reações. Confesso que a pintura me desperta sim, um sentimento de nostalgia e muitas lembranças estranhas, que ainda não consegui decifrá-las. Mas a jóia também me desperta a possibilidade da transformação, o fogo, o metal e o tridimensional. Uma coisa é desenhar a jóia, que é a criação, outra é dar vida a ela, num processo que as vezes me transporta para a Idade Média, o martelo, o fogo, a bigorna. Uma vez perguntei a uma criança, de qual jóia ela gostava mais, e com a inocência e a verdade que só uma criança tem, ela me respondeu: “Ambas tem sua pura beleza “. Assim vejo a pintura e as minhas pequenas esculturas.

BELLO – Para muitos, a arte é um jeito de escapar das nossas vidas, nem que seja por alguns minutos. O que é para você?
BL – Se alguém acha que a arte é escapar da vida, acho que este ser deve rever seu conceito de vida, de arte ou de ser. A arte celebra a vida, a música embala o berço da nossa jornada na vida, a pintura, escultura, a dança são colírios que clareiam a cegueira da mediocridade. A arte de verdade é feita através do amor, seja qual for o seu recado, belo ou feio, chocante ou suave, mas nos fazem refletir em quem somos. Literalmente um remédio revelador que transcendem o limite do homem, mostrando sua própria alma. A arte é a fotografia do homem e de até aonde ele pode chegar. Aquele que se recusa a ver a sua própria realidade, esse sim está muito doente, porque tem medo do seu próprio reflexo.
BELLO – De onde surgiu a necessidade de ser um artista? Qual foi a gota d’agua que fez você perceber que nada mais importava.
BL – A arte nunca foi uma escolha, foi a minha companheira por toda a vida. Digo que devo ter segurado um lápis contaminado pelo vírus da arte, quando criança. Jamais quis fazer qualquer outra coisa a não ser criar. Não sei o que é escolher uma profissão. Quando algum jovem me diz que ainda não sabe o que vai fazer, isso me dá muita estranheza, deve ser angustiante. A profissão é o nosso primeiro casamento com nossa própria essência, é muito importante amarmos o que fazemos, a certeza nos torna mais perseverantes, e fica muito mais difícil nos divorciarmos de nós mesmos, mas como em todo casamento, é preciso nos reinventarmos sempre. Às vezes nos aventurarmos a beira do abismo da insanidade, para assim desconstruir algumas muralhas que nos impedem de ver o horizonte sem fim. Agradeço a vida por não ter me dado opção. Amo o que faço.

BELLO – Qual aspectos da cultura brasileira são importantes no seu trabalho?
BL – Acho que o artista constrói o seu próprio País, a linguagem da arte é universal, não tem pátria, não é como o artesanato, que é um trabalho regional e com a influencia da região aonde são feitos, muitas vezes com materiais da própria região, o que ainda o enraízam mais. Arte não pode ter amarras, quanto mais livres e despidas de influências, mais forte ela é, mais longe ela vai. Quanto menos raízes, mais livre e poliglota ela é. Amo a vibração que o Brasil tem, um País novo, sem o peso na sua bagagem, sem o fardo das guerras de outrora, um lugar em crescimento e isso é muito bom, está no ar. Mas não poderia deixar de grifar um fator que influenciam em minhas pequenas esculturas: o Brasil é um País tropical, de sol intenso, por isso na maioria das minhas peças, meu acabamento no ouro e na prata são foscos, pois o excesso de brilho intenso ofuscam as formas. Se morasse em Paris ou em algum País da Europa, com a luz de lá, talvez algumas peças permitiriam um outro acabamento.

These are are things we do not see, but are fundamentals of all realities. Immense worlds submerse in abyssal pits, bacterial realms, fungus and microbes suspended in air, always invisible to the eye. 

Beings that live in the deeps of our minds, and just like in the oceans, move in absolute silence, opening paths in the darkness with its phosphorescence, with almost no oxygen. Invertebrate gelatins that defy existence and adapt to the absurd with its lysergic dances, delusions of shapes and colors, that complete the unthinkable.

Creatures with no purpose or consciousness, not having to think about the reason of existing. Moved only by instinct, they fulfill their only necessity of being fed. Divine and free, they feed themselves with our energy, debris of our intentions and actions. Some transcend to the macro universe, shapeshifting into monstrous and uncontrollable shapes.

Theres only one certainty about this universe: it is real and alive in our minds. It is not a parallel dimension but the infrastructure and origin of all worlds: the micro universe.

 

BELLO – Where did the inspiration for such an abstract yet so real, physical and tangent concept from?
BL – I collected insects when I was a teenager, I actually had more than three thousand at one point. So I started using parts from repeated ones to create new insects, beings that don’t exist in our world. I had a tiny lab with a microscope and everything. I was fascinated by the egg colonies and the beetles’ mechanisms. It all was tattooed into my memory, like a file that I can now reopen and dig deep into this micro universe, the beginning of it all. An infinity chain that sustains our macro universe and so forth, interacting with us in silence and invisibility, creating a vacuum of blindness in our perception and understanding of ourselves and everything that surrounds us.

BELLO – Where do you go for inspiration?
BL – As a child, pencils, paper and clay were always my inseparable toys. I was a rebellious teen, and now I know that it protected me and kept me loyal to this love I have for creating things. Its all a process of selecting the essence and relevance of everything I see. Going to the fish market, seeing the beauty in the lobster’s shell, the suction mechanism of an octopus’ tentacles. Its up to us to take away inspiration from life, and mine the visible beauty into fuel and manifest it into the act of creating.

BELLO – Where does your creative process of painting interweaves with the process of designing jewelry?
BL – For both I need some sort of physical base: in paintings the canvas or paper, and in jewelry the human body. I feel like in both I feel the freedom to roam through the abstract or geometric, or subjective or whatever it is. Art is not linear, just like our lives or our state of spirit; therefore, sometimes we dip into the deeps, and sometimes we’re right on the surface of things, and sometimes we soar. One complements the other: they’re like sisters, but each with its own voice. I believe what interweaves both mediums is me, both have the same father.

BELLO – What does painting bring you, that jewelry doesn’t? Or vice versa.
BL – When the process of painting begins, it requires full attention and focus, and vice versa. They are different materials, different tools, both translate the new, the never-before-seen, and makes it seen; it makes it possible to be existent in some sort of language, even if abstract or subjective. It makes us think, provokes; waking up feelings and reactions. I confess that painting does awaken a feeling of nostalgia and strange memories, that I still haven’t deciphered. But designing my jewelry also awakes a unique feeling of transforming, of fire: the metal is three dimensional. It brings me back to the Dark Ages, with the hammer, the anvil, the fire. One day I asked a child which piece was her favorite and she answered with the innocence only present inside a child’s mind: “both have their pure beauty”. Thats how I see my paintings and my tiny sculptures.

BELLO – To many, art is a way of escaping our lives, even if for a few minutes. What is it to you?
BL – I believe that if anyone thinks art is about escaping, they need to revisit their concept of living. True art is made through love, whatever the message is, beautiful or ugly, shocking or subtle, but it makes us reflect about who we are. Literally a revealing remedy that transcends mankind’s limits, showing ourselves our own souls. Art is the photography of men, and where he can get to. The one who refuses to see its own reality is the one that is sick, for it is scared of his own reflection.

BELLO – Where did the need to be an artist come from? What was the last drop?
BL – Art was never a choice. It was my companion all along. I never wanted to do anything else but art. I don’t really know what choosing a profession is. When a young kid tells me they don’t know what they want to be when they grow up I find it strange. Our profession is our first marriage to our own essence, it’s very important to love what we do; certainty makes us more perseverant. Sometimes we venture into insanity’s abyss, just so we can deconstruct walls that obscure the horizon ahead. I thank life for not having given me another option. I love what I do.

BELLO – Which aspects of the Brazilian culture are important for your work?
BL – I believe the artist constructs its own country. The language of art is universal, doesn’t belong to one particular nation. Art can’t have ties, the more freedom, the stronger it is. The less roots, the more polyglot it is. I do love the vibration Brasil brings: a young country, without the weight of heavy historical luggage. Without the burden of past wars; a country still growing up. But I should mention a factor that influences my jewelry: Brasil is a tropical country, of intense sunlight; therefore the finish on my pieces is matte. If I lived in Paris or other European countries, maybe it would allow for some shine to my pieces.

About The Author

Aleksandar Tomovic
Editor in Chief

French photographer (of Serbian Origins) lives and works in Los Angeles. Known for his celebrity fashion editorials and recognized around the world for his european esthetics and american efficiency.

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